Como todos sabem, no último Domingo, 22, o apresentador do Fantástico, Zeca Camargo, entrevistou a Madonna em Londres e decidiu contar como foi todo esse processo em seu blog. O material foi dividido em três partes e hoje trago a primeira delas aqui pro Twenty5&More. Achei muito inteessante e já tô curioso pelas outras partes.


Madonna, Londres, 2012

“Se tudo correr bem”… Lembro-me de ter usado essa expressão logo no início do último post, quando convidei você a me usar como um porta-voz de sua pergunta para Madonna. O resultado disso, como vou contar aqui hoje, foi excepcional – talvez você tenha conferido a edição final ontem no “Fantástico”, mas se não teve chance de fazer isso, é só clicar aqui. E, pelo bom clima entre entrevistador (sim, eu) e entrevistada (ela, Madonna), você pode concluir sim que tudo “correu bem” na hora da entrevista. Mas até chegar lá…
Como já contei aqui algumas vezes, o mundo do “showbizz” é imprevisível. Artistas mudam suas agendas na última hora; cancelam entrevistas no próprio dia marcado (a cena de Britney Spears saindo chorando do quarto do hotel em Nova York, onde eu estava prestes a entrar para conversar com ela é o registro mais curioso dessa imprevisibilidade – e foi bem contada no meu livro “De a-ha a U2″); acordam de mau-humor; estendem o tempo do bate-papo conforme suas vontades; ou mesmo te cobrem de atenções inimagináveis numa situação que é – sempre é bom lembrar – estritamente profissional. E com Madonna, desta vez, o imprevisto também entrou em jogo. Na última segunda-feira, escrevi que iria conversar com ela na quarta. Pois não é que, minutos antes de eu embarcar para Londres, recebo então um email da Liz Rosenberg – que é a “toda poderosa” que cuida (entre outras coisas) da agenda de compromissos da cantora – perguntando displicentemente se eu me incomodaria se a entrevista fosse mudada para sexta-feira…
“Não tome nenhuma providência nenhuma antes de eu confirmar essa alteração”, escreveu Liz – meio que me deixando sem ação. Meu primeiro compromisso, antes de fazer a entrevista, era assistir ao show – programado para a noite de terça, no Hyde Park (mais sobre ele, na parte 3 dessa série de posts sobre Madonna – sim, vai ter mais um na quinta e outro na segunda que vem sobre o mesmo assunto; e se você achar que eu estou exagerando, eu digo que ainda é pouco para dizer tudo que quero sore ela… mas eu divago…). Eu tinha de embarcar para não perder a apresentação – mas será que valia a pena entrar no avião se a própria entrevista não era uma certeza? Explico melhor: quando começa a mudar assim, a gente já vai ficando desconfiado. De quarta para sexta… e de sexta para quando? Sexta era o meu limite – eu tinha que voltar para o Brasil para apresentar o “Fantástico”, não poderia ficar mais… Ao mesmo tempo, Madonna, pela minha experiência, é uma super profissional: só deixaria de cumprir um compromisso se acontecesse uma coisa muito grave. Assim, com tudo isso em mente, voei para Londres sem saber direito o que iria acontecer.
Mesmo lá, enquanto matava o tempo para ir ao Hyde Park visitando alguns de meus lugares favoritos pela cidade (a Serpentine Gallery, com seu novo pavilhão de verão assinado por Herzog & de Meuron e Ai Weiwei; a nunca decepcionante Hayward Gallery, com uma incrível exposição sobre “arte invisível”; as novas e sensacionais dependências da Photographer’s Gallery), enfim, enquanto eu passeava, a cada 15 minutos consultava minhas mensagem para saber se tinha alguma novidade. Foi só por volta das 19h – isto é, menos de 24 horas para o horário originalmente marcado – que veio finalmente a resposta: Madonna falaria comigo às 17h30, da sexta-feira 20 de julho.
O jeito bom de receber essa notícia foi encarar com animação os dois dias que eu ganhei de folga numa cidade que eu adoro (dias esses que, aliás, eu nem gastei por lá – mas isso eu conto uma outra hora). Mas a “cabeça de jornalista” já começou a ficar preocupada. O voo de volta para o Brasil era sexta, às 21h50. Digamos – digamos – que Madonna não atrasasse um minuto, dos dez que ela tinha prometido para mim. Até o material ficar pronto, eu teria de esperar uma meia hora por lá. Chegar em Heathrow (o principal aeroporto de Londres) sempre foi uma maratona à parte – e isso nem é um trocadilho com a cidade que respira excitação com as Olimpíadas que começam esta semana! Aí tinha os trâmites do embarque… Será que daria tempo?
Decidi confiar na sorte. Depois da experiência fascinante que foi ver ela no palco (já disse: mais sobre o próprio show, só na segunda que vem – este post é dedicado aos bastidores da entrevista!), passei os dias seguintes, quarta e quinta, tentando disfarçar a minha expectativa para nosso encontro. Afinal… Bem, era Madonna. Não só eu já tinha assumido aqui um compromisso de levar as questões mais interessantes enviadas para ela – um “pacto” com os fãs -, mas eu também não queria fazer feio na frente da “moça”: a maior artista pop dos últimos 30 anos; uma diva que, apesar dos 54 anos que vai completar no mês que vem, ainda tem a energia, a paciência, e a curiosidade de mexer com a cabeça de toda a nossa cultura; uma mulher que, além da importância na formação cultural de mais de uma geração, ainda tem o poder de influenciar a maneira como a gente vive; uma entrevistadora notoriamente difícil (uma pesquisa no YouTube pode constatar que nem sempre as conversas são um sucesso); e um ídolo meu pessoal, com quem tive um encontro transformador em 1989, quando morava em Nova York (tema da segunda parte dessa trilogia de posts sobre ela). Todos esses elementos giravam em minha cabeça como malabares, presentes a cada minuto que eu passei com amigos queridos numa outra cidade “ali perto” de Londres. E, ao contrário de isso me preparar melhor para o próprio momento máximo, eu só ia ficando mais angustiado. Até que então chegou a sexta-feira…
Peguei um trem de manhã de volta para Londres e, para tentar me distrair, aceitei o convite para visitar o ateliê de um fotógrafo que admiro há tempos e que, por uma feliz coincidência, estava na cidade. Imagens de personagens e pessoas de uma cultura distante do que aquela que me cercava (Índia) foram sim um belo respiro para me colocar no espírito da entrevista. De lá, voltei ao hotel, arrumei minhas malas e então fui ao encontro de Madonna.




O local marcado era um hotel em frente – veja que comodidade – à casa da cantora (onde posei para a foto ao lado), pertinho do próprio Hyde Park. Tudo muito organizado: pisei no lobby do hotel, uns 45 minutos antes do combinado, e já fui chamado pelo nome – tipo “o senhor está sendo aguardado”. Muito chique. Fui encaminhado para o restaurante do hotel. Primeiro a chegar, fui vendo os colegas que vieram depois. Um curioso repórter da Argentina, que já havia encontrado em outras ocasiões; um “garoto” chileno, que estava ligeiramente nervoso, sem ainda saber como separar seu lado fã do lado repórter; um jornalista mexicano, ligeiramente deslocado, que dizia cobrir mais a área de esportes; e mais um da Polônia – esse sim bastante deslocado, pelo menos geograficamente. Como em todos esses eventos de mídia (conhecidos pelo termo “junket”), a mistura era bastante bizarra. Como estava programado para eu ser o primeiro da lista – eu era o único com um “problema” de voo – criou-se uma certa ansiedade: todos queriam saber, ainda que disfarçadamente, como estaria o “espírito” de Madonna naquele dia para entrevistas.
Ela mesmo, que é bom… nada de chegar. Quase 18h (eu, contando os minutos) e nada da cantora – até que percebemos uma certa mobilização no corredor que passava por trás do restaurante (os espaços eram separados por paredes de vidro). Era um bom sinal de que ela estava a caminho. Mas sua entrada ainda levaria outros bons 15 minutos – e Madonna passou tão rapidamente, que eu nem tive tempo de virar para conferir sua passagem. Confesso, porém, que só de saber que ela estava no mesmo espaço que nós ali, já fez com que eu finalmente deixasse escorrer uma leve gota de suor – quase um milagre, no tórrido verão londrino deste ano (com temperaturas aberrantes na faixa dos 14 graus…). Era hora, enfim, de me concentrar!
Ia passando vários dos assuntos que queria conversar com ela na memória – alguns, claro, sugeridos por você. As provocações dessa turnê; as cenas mais ousadas do show; seu filho Rocco no palco; seu papel como artista; Lady Gaga; sua energia aos 50 (e tantos) anos; sua vontade de vir ao Brasil. Ao mesmo tempo, ia tentando ver como tudo isso caberia em 10 minutos! Coisas demais para pensar? Pode apostar. E para dificultar um pouco as coisas, Liz Rosenberg – que já havia se apresentado antes – veio em minha direção e disse: “Pode vir comigo”. Seria um exagero dizer que fiquei gelado? Na verdade o adjetivo não descreve bem o que senti naquele preâmbulo. Estava excitado. Estava nervoso. Estava feliz. Estava de olho no relógio. Estava concentrado. Estava disfarçando o fã que estava dentro de mim. Estava torcendo para ganhar alguns minutos extras. Estava aliviado de saber que ia começar logo.
Fui posicionado ali no corredor pelo qual ela havia passado poucos minutos antes. Por sorte, fiquei bem em frente a uma janela de vidro para dentro do próprio quarto onde ela estava – ela, e mais de 15 pessoas (entre as que eu consegui contar) a sua volta: cinegrafistas, iluminadores, assessores de todo tipo, algumas pessoas aparentemente sem nada para fazer, maquiadores, garçons. Como a porta do quarto estava aberta, eu podia ouvir mais ou menos o que conversavam – basicamente perguntas sobre como ela estava fotografando nas câmeras. A certa altura, alguém levantou um monitor com sua imagem – e pude finalmente vê-la (ela estava sentada de costas para o meu ângulo de visão). Estava tão bem – e, eu, tão louco para que começasse logo – que quase falei em voz alta: “Está ótima Madonna, vamos?”. Mas o início mesmo seria só dali a mais alguns minutos. Um segurança passou e perguntou o que eu estava fazendo ali – ao que eu respondi imediatamente que havia sido posicionado naquele lugar pela própria Liz Rosenberg. Ele então perdeu o interesse por mim (felizmente), e consegui entrar um pouco mais no clima do que estava acontecendo lá dentro. Aos poucos, já estava tão familiarizado com o ambiente que, quando meu nome finalmente foi chamado, achei que era menos uma surpresa do que uma consequência natural de estar ali.
“Madonna, esse é Zeca, do Brasil”, alguém nos apresentou – e ela fez questão de repetir o meu nome exatamente como você o pronunciaria. Enquanto me sentava, elogiei seu sotaque e ela brincou modestamente que seu português não era muito bom. Eu imediatamente retruquei, no mesmo tom divertido, que achava que ela tinha bons motivos para ter aprendido alguma coisa da nossa língua. “Só poucas e boas palavras”, disse ela… (A conversa toda, claro, era uma referência a sua história com o modelo e DJ brasileiro Jesus Luz – que, elegantemente, nem precisou ser mencionado para se fazer presente). As câmeras ainda não estavam rolando – e eu lamentava secretamente o fato de elas não terem registrado esse momento de descontração…
Madonna fez ainda um elogio à minha roupa, e comentou, também bem-humorada, que eu era grande, e que seria melhor se eu não me mexesse tanto para não encobrir nenhuma câmera. O clima era bom! E quando finalmente alguém gritou “Valendo!”, nem tive tempo de pensar: o “Zeca repórter” entrou em cena, e tudo que eu queria a partir dali era ser capaz de cativar Madonna com uma conversa no mínimo interessante, que não a aborrecesse, e que satisfizesse os fãs que estariam vendo aquilo no próximo “Fantástico”. E acho que funcionou!
A própria entrevista, acho que nem é o caso de reproduzir aqui (está no link que indiquei acima). Mas o que vale a pena comentar é que achei Madonna muito mais espontânea do que esperava. Revendo a conversa, pensei até que algumas pessoas poderiam dizer que ela estava sendo fria. De fato, sua postura quase imóvel, insinuava uma certa distância. Mas posso garantir que ela estava realmente envolvida nas respostas que dava. Tenho alguns anos de experiência em sentar diante de artistas e ouvir eles recitarem “releases” – respostas prontas sem nenhuma espontaneidade. Esse não foi o caso de Madonna – mas não foi mesmo…
Para mim, foi até relativamente fácil. Puxei pelo seu lado criativo, pelas coisas que fazem ela ser uma artista tão fundamental há mais de trinta anos. E acertei em cheio – criamos uma conexão (que, aliás, eu não tenho ilusão nenhuma de que tenha durado depois que eu saí da sala, mas que ali, nos dez minutos de entrevista, funcionou maravilhosamente!). Eu mesmo fiquei tão interessado que quase não prestei atenção à pessoa que estava cara a cara comigo – digo, à própria pessoa física que estava ali. Ao longo do fim de semana (e mesmo hoje de manhã), já no Brasil, o que as pessoas mais queriam saber era “como ela estava?”. A pergunta, claro, não era tão inocente assim: a curiosidade era sobre seu estado – se ela estava com uma boa aparência, se a saúde e vigor que ela apresenta nos palcos e nos vídeos não eram apenas truques…
Se isso é também o que te inquieta, a boa notícia é que ela está, digamos, com tudo em cima. Ninguém pode nem sugerir que ela tem vinte – ou mesmo trinta – anos. Tudo bem. Madonna tem o rosto que tem, aos 53 (quase 54) anos. E pronto. Os olhos, como sempre, são os elementos da cara que mais entregam a idade – e no seu caso é possível perceber um certo cansaço da pele em volta das pálpebras. Fora isso, se ela não estava com um visual impecável (as luvas para esconder as mãos talvez envelhecidas eram seu único grande deslize), estava bem digna de ser a artista que todos nós aprendemos a amar e respeitar. Acima de tudo, o que era mais interessante ali era o fluxo da conversa – e ele correu sem problemas, como num bom bate-papo (que é, como sempre defendo, o que deve ser toda entrevista).
Depois da breve despedida – e dos votos de que ela se divirta (e nos divirta) ainda mais nessa próxima passagem pelo Brasil, fui “desplugado” (microfones retirados), e saí sem me demorar. Já de costas para ela, agradeci novamente, mais por educação – um rápido “Thank you again, Madonna”. E ouvi de volta um agradabilíssimo “Thanks Zeca”. A pronuncia era tão impecável quanto à do momento em que fomos apresentados. E eu fiquei tão emocionado que ainda ousei me virar para ver mais uma vez seu rosto. Porém, tal como Eurídice retornando ao Inferno, ela já não olhava para mim. Eu, pobre Orfeu, só tinha agora as lembranças de alguns minutos importantíssimos – não só para minha “currículo” de apresentador, como para meu histórico de fã.
Mas mais sobre isso na quinta-feira…

(Durante essa “trilogia Madonna”, por atenção ao próprio assunto, vou dar um tempo no “Refrão nosso de cada dia”; e semana que vem retomamos)."



 Fonte: Blog do Zeca Camargo /G1