E enfim, chegamos a terceira e última parte dos textos do Zeca Camargo, refletindo sobre como foi a experiencia de ver e entrevistar Madonna. Neste post ele foca no show de Paris, no teatro Olympia, e traz de volta tudo aquilo que falou nos dois primeiros posts, fechando um ciclo perfeitamente.

Madonna, Paris, 2012

"Viu o show de Madonna no famoso Olympia de Paris, na última quarta-feira? Eu estava quieto aqui no meu canto, quando o pessoal que me acompanhou na entrevista que fiz com ela na semana passada me mandou uma mensagem: “Madonna ao vivo agora no YouTube”. Conectei-me imediatamente e, antes mesmo de aproveitar para ver novamente a cantora brilhar, fiz uma pequena divagação sobre a maravilha que é vivermos uma época onde a tecnologia nos permite acesso a eventos assim. Para mim, que sou do tempo em que parte do barato de fazer uma viagem de mochileiro à Europa era torcer para que você esbarrasse em algum show que valesse a pena (internet, acredite, era uma coisa que não existia nos anos 80, ou seja, informações sobre bandas e artistas ou chegavam muito atrasadas para nós aqui no Brasil ou nem chegavam…), a possibilidade de assistir a um show com Madonna em HD na tela do meu computador era demais para a minha cabeça! Ao mesmo tempo em que eu queria ver o que ela mostrava aos franceses (eu sabia que seria um show diferente, mais compacto do aquele que eu vi no Hyde Park há duas semanas), eu agradecia por estar vivo nesses tempos tão modernos…
Mas eu, claro, divago agora da mesma maneira que divaguei na quarta passada – o que não é nada bom para começar um texto que fecha uma trilogia sobre a própria Madonna. O fato é que lá estava conectado ao Olympia como se não houvesse um oceano entre a cantora e eu, como se as músicas que ela cantava e as coisas que ela falava eram diretamente dirigidas a mim. Fascinante…
Se você não viu essa apresentação, pode escolher entre várias versões disponíveis na internet (encontrei uma boa, integral e em alta-definição, aqui). Tenho certeza de que você vai gostar – talvez até mais do que os fãs franceses que lotaram a casa de concertos onde já pisou um leque de talentos que vai de Edith Piaf a Lady Gaga, passando por Elis Regina, David Bowie, Cesária Évora, James Brown, Morrissey… (Como você deve ter conferido em inúmeros comentários, por incrível que pareça, teve gente que reclamou, xingou, vaiou, sempre aquele grupo que reclama da generosidade de um artista, mas vamos deixar isso para lá…). Eu mesmo gostei em especial da abertura (“Turn up the radio”), a “canja” em francês (“Je t’aime moi non plus”), de ouvir de novo o curioso arranjo de “Open your heart” (que ela fez com o trio Kalikan, do País Basco). Mas gostei sobretudo do que Madonna falou num intervalo entre músicas.
Por alguns minutos, a cantora elogiou fortemente a pluralidade da cultura francesa. “Pessoas diferentes sempre foram bem-vindas em Paris”, disse ela, “As artes e a criatividade vieram sempre para cá”. Fato. Madonna não só listou nomes de franceses e francesas notáveis que sacudiram a cultura mundial (Piaf, Godard, Gainsbourg, Alain Delon, Jeanne Moreau), mas também lembrou de mentes estrangeiras (e brilhantes) que floresceram em Paris – Picasso (espanhol), Van Gogh (holandês), Hemingway (americano) . Ela lembrou ainda que, antes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, artistas negros só podiam tocar em guetos, mas em Paris eles eram aclamados e recebidos de braços abertos (Josephine Baker, Charlie Parker, ou mesmo o escritor James Baldwin). “A França abriu suas portas para quem era diferente”.
Ciente de que tinha provocado a ira de alguns franceses quando colocou uma suástica (um antigo símbolo budista que foi apropriado pelo nazismo – e há décadas é inevitavelmente associado a esse que foi um dos regimes mais intolerantes da história da humanidade) junto ao rosto da política francesa Marine Le Pen, Madonna esclareceu: “Minha intenção não é fazer inimigos, mas promover tolerância”. E fechou seu breve discurso com a sabedoria que eu (e você que é fã) já esperava (esperávamos) dela: “Da próxima vez que você enfrentar um problema e apontar o dedo para culpar alguém, faça diferente – aponte o dedo para você!”.
O recado estava dado.
Que recado? Bem, o mesmo que ela espalha há trinta anos! No meu post anterior, lembrei-me de uma apresentação dela em 1989, em Nova York, quando ela disse a uma plateia pega de surpresa que a resposta a qualquer pessoa que tente diminuir simplesmente porque você é diferente deveria ser: “I don’t give a shit!”. Seja no palco do Olympia, no Hyde Park, em qualquer escala da turnê “MDNA” (ou das outras turnês mundiais), a mensagem mais importante que Madonna plantou no mundo é essa: acredite no que você faz! Tudo estaria igual sempre no mundo, não fosse pela ousadia dos artistas – pessoas que, sim, são diferentes.
Aos nomes que ela citou em Paris, uma infinidade de outros podem ser acrescentados: músicos, atores e atrizes, diretores, escritores, bailarinos, humoristas, pintores, viajantes, ativistas, cientistas – gente que teve a coragem para mudar alguma coisa, e, mesmo pagando caro por isso, contribuíram muito mais para nossos avanços como seres inteligentes (além de terem conquistado um enorme prazer em ter criado uma revolução, por menor que seja), do que aqueles que escolhem o conforto de ficar no sofá de casa dedicando-se a pequenas e inócuas bravatas (mandando desbocados emails, twitters, “mensagens no Face”, sempre covardemente anônimos, para dar um exemplo bem contemporâneo). Até porque faz parte desse grupo – o dos artistas revolucionários (com o perdão do pleonasmo) – Madonna é a porta-voz maior dessa luta, em especial nesse momento que, como ela mesma disse em Paris, é tenso. “O que acontece quando as pessoas ficam com medo?”, perguntou ela para o público no Olympia. “Elas tornam-se intolerantes”…



Se me orgulho de alguma coisa nesses quarenta e nove anos, é de não ter tido medo de nada. E quando eu ficava na dúvida sobre no que eu deveria acreditar, tinha sempre Madonna me ajudando a não caminhar para trás nesse sentido. Por isso me emocionei com suas palavras no show de quarta. Da mesma maneira que me emocionei quando ela disse algo muito parecido naquele show de Londres que fui conferir de perto – e que, como fiquei devendo, quero comentar aqui hoje. Sua conversa com a plateia naquela noite de 24 de julho foi bem mais breve que a de Paris. Mas o resumo de tudo estava lá, com todas as letras: alguém tenta te diminuir por ter feito uma coisa que ele ou ela não gosta (ou que, eventualmente até pode ser interpretada como uma ameaça)? “Don’t give a shit”.
Ter visto esse show de perto, claro, foi especial por outros motivos. Eu acho até que não vi a melhor apresentação de Madonna nessa turnê. Vários fatores teriam prejudicado o concerto daquela noite – para começar, limitações do próprio lugar escolhido (por regulamentos da cidade, o volume não poderia ser muito alto, e, como ficou claro alguns dias antes, quando o próprio Paul McCartney, no mesmo palco, foi “desplugado” exatamente às 22h30 – horário limite para as apresentações no Hyde Park –, havia um certo clima de “corrida contra o relógio”). E o fato de Madonna ter entrado em cena quando ainda havia muita claridade no parque (no verão londrino, a noite só chega bem mais tarde), certamente prejudicou os fantásticos telões – um dos maiores trunfos de “MDNA”. Mas nem com todos esses contratempos é possível dizer que o show não é bom. Ali estava o desenho de um espetáculo que, quando está com tudo em cima (como a gente deseja que aconteça em dezembro no Brasil), tem tudo para ser o maior da Terra! Aqui vai minha seleção de alguns pontos altos:
- A abertura com a catedral pegando fogo – monges de capuz, homens de salto alto, uma cruz com as letras “MDNA”, e aquela “senhora” de 53 anos mostrando mais disposição do que mais da metade da “juventude” que estava na plateia. “Girl gone wild” está longe de ser minha música favorita do último álbum, mas com um visual desses, o número de abertura é um convite para uma viagem que a gente aceita sem resistência.
- O sangue em “Gang bang” – aí está uma música que ganhou muito com o visual. A novelinha que criaram para ilustrar a canção, num clima de filme “noir”, poderia até ser ingênua, mas a decisão de borrar todo o palco com enormes manchas de sangue acabou criando um impacto genial.
- O “medley” de “Express yourself” e “Born this way” – como você talvez tenha conferido na minha entrevista que fiz com ela, essa foi a maneira que Madonna escolheu para, digamos, responder Lady Gaga. Para minha satisfação, sua resposta a minha pergunta sobre a brincadeira com Gaga rendeu repercussões em vários lugares, mas sem querer me gabar demais, a que mais me deixou “orgulhoso” foi a do “NME” (quem diria… a minha “bíblia” de anos citando uma entrevista minha, com link e tudo… mas eu divago, novamente, desculpe).
- Os “soldadinhos de chumbo” de “Gimme all your luvin’ ” – até ali, já praticamente na metade do show, esse foi para mim o ponto alto. No começo do ano já mostrei aqui mesmo o quanto gosto dessa música. Mas o que eu vi ali no palco levou tudo a um outro patamar. O efeito dos bailarinos entrando como “soldadinhos” suspenso naquele cenário enorme era simplesmente mágico.
- A “releitura” de “Open your heart” – já comentei brevemente sobre isso acima. A participação do Kalikan deu outra dimensão à canção (que já é uma das “top 10” da minha lista) e fez com que um dos meus segredos para encher a pista de dança quando brinco de ser DJ se transformasse em um rito tribal.
- Outra “releitura”, a de “Justify my love” – a princípio, apenas um intervalo musical para Madonna tomar um fôlego para a última parte do show. Mas, como sempre, ela fez questão de reinventar. Não só a música está diferente, como o clipe é outro – menos “indecente” que a versão original, talvez, mas certamente mais sensual.
- “Like a virgin” como “blues” – simplesmente brilhante. E emocionante. E transparente. E verdadeiro. Com ou sem Madonna chorando.
- Todas as provocações de “Nobody knows me” – Madonna sendo a artista que ela nasceu para ser: inteligente e provocante. E foi com essa música que ela incomodou Marine Le Pen e seus seguidores – bravo! (Sobre essa cutucada, aliás, sobre o próprio uso da suástica, Madonna defendeu seu papel de formadora de opinião durante nossa entrevista – outro fato que deu boa repercussão internacional, inclusive no jornal “The New York Times”, mas eu não vou valorizar demais por aqui para você não achar que estou muito convencido, eheh!).
- “Like a prayer” + “Celebration” – não importa onde ou quando eu ouço “Like a prayer”: eu sempre sou tomado por um arroubo libertador. Já expliquei um pouco meus motivos no post anterior. Apenas queria acrescentar que ver o elenco inteiro cantando aquele refrão – e dali eles partirem para uma ensandecida festa em “Celebration” (sobretudo com Madonna mostrando a mesma energia nas coreografias do que no início do show) – é um encerramento extasiante. “Gran finale” é uma expressão tímida para descrever o que acontece ali antes de Madonna se despedir de vez.
Acabei dividindo o show em “fatias” – e você pode até achar que elas não fazem um grande “todo”. Mas não se engane. Esses foram os meus momentos favoritos. Cada um de nós que estava lá no Hyde Park fez seu “corte”, sua seleção. Assim como você vai fazer quando finalmente conferir o show ao vivo, aqui no Brasil. E aí então vai entender que a grandiosidade de Madonna não se traduz em partes, mas num grande conjunto – uma gigantesca fonte de inspiração que minha geração teve o privilégio de ver crescer e se tornar cada vez mais crucial à medida que os tempos ameaçam ficar mais medrosos e medíocres. Eu não tenho dúvidas de que o que tudo que ela defende é o que vai sempre ganhar – nem que seja pela lógica conclusão de que a ignorância nunca será forte o suficiente para nos representar como espécie.
Em três longos e dedicados posts, tentei dar a dimensão do que Madonna e sua arte significam para mim – e, quem sabe, para você também. Como humilde súdito, é o mínimo que eu podia fazer por essa rainha.
E que dezembro chegue logo!"

Com certeza Zeca. Que Dezembro chegue logo!

E neste Fim de Semana, teremos, o retorno da sessão FANADDICTION!

Aguardem para conhecer mais uma bela história de vida!

Até amanhã!